domingo, 29 de agosto de 2010

O sucesso pede passagem


A iniciativa e o desejo da realização mostram que se pode tornar possível o que antes não passava de um simples sonho

Elas ganham espaço. Com o olhar inovador e cauteloso, apostam em seus ideais, quebram paradigmas e tornam-se responsáveis por 53% dos novos empreendimentos brasileiros. A mulher entra em cena e demonstra que a economia também precisa de um toque feminino para seguir adiante, numa sociedade antes totalmente machista.

Pela primeira vez, o empreendedorismo feminino superou em 2009 o masculino, pois de acordo com pesquisas informadas pelo SEBRAE (Serviço Brasileiro de apoio às micro e pequenas empresas), 18,8 milhões de empresários responsáveis pelos empreendimentos do Brasil, 53% são mulheres e 47% homens, comparado ao ano anterior.

O estudo é realizado todos os anos em 54 países pela GEM Consortium(Global Entreneurship Monitor) que analisa a atividade empreendedora do mundo, e revela que elas estão se dedicando aos empreendimentos não somente na economia brasileira, mas também em Guatemala e Tongo, pois somam 61% e 54% de empreendedoras na frente dos negócios nesses países, respectivamente.

A sociedade antiga era arquitetada por preconceitos e principalmente exclusão da mulher nos diferentes assuntos que compreendiam a humanidade. Eram atribuídas a elas apenas serviços domésticos, não disponibilizado nenhum espaço em estudos acadêmicos ou em quaisquer outros em que pudessem expor suas opiniões.
No entanto, as que conseguiam um pequeno lugar na sociedade era motivo de reprovação por muitas famílias e pelos grandes nomes de peso da época. “O homem tinha o papel de caçar, trazer alimentos para o lar, já a mulher, cuidar dos filhos e da casa”, aponta Antônio Carlos Aidar Sauaia, professor doutor da Faculdade de economia e administração da Universidade de São Paulo.

As escolas que separavam homens e mulheres são consideradas por muitos autores o exemplo clássico de que o preconceito e a separação de atividades relacionadas aos sexos eram rigidamente executados, delimitando e reforçando o dever de cada um na sociedade. “A mulher era preparada para casar, crescia aprendendoos fazeres domésticos.”, afirma Antônio César Amaru Maximiano, professor doutor da FEA/USP.

Ao longo do tempo, essa grande imposição foi sendo modificada, adaptando a sociedade ao dinamismo de ideias e reflexões. O aparecimento da pílula anticoncepcional revela que a mulher pode efetivamente participar no planejamento familiar e poder na decisão do casal, o que levou ao início de uma nova era.

A sociedade modifica-se e junto dela as ideias antes não aceitas começam a se expôr e surgir diante de um mundo globalizado. “Os homens puderam mostrar-se bons cozinheiros e costureiros,profissionais aptos a diversas atividades “femininas”.As mulheres onquistaram posições “masculinas”,dirigindo taxis e caminhões e liderando grupos como executivas.”, aponta Antônio Sauaia em seu estudo sobre a relação dos sexos nos
jogos empresariais.

A psicologia afirma que toda a humanidade é andrógina (Origem grega andros – homem e gynos- mulher), pois cada pessoa, independentemente do seu sexo, reflete em sua personalidade, traços femininos e masculinos. Há controvérsias quando se trata da opinião de alguns especialistas quando estes afirmam que as mulheres por serem mais cautelosas, estão tendo mais êxito na área empreendedora, em relação aos homens.
No entanto, outros acreditam que o equilíbrio entre o andros e o gynos faz com que ambos obtenham êxito nas tomadas de decisões dos empreendimentos, pois homens podem
ter personalidades inerentes à mulher e vice e versa. É relativo dizer que a mulher é mais cautelosa nas tomadas de decisões, por que muitos
homens apresentam um tratamento interpessoal melhor do que algumas mulheres”, diz Antônio Sauaia.

O obstáculo, ainda persiste
Muitas instituições ainda privilegiam a contratação de homens para grandes cargos da empresa, o que leva ao desemprego feminino. No entanto, com aumento das redes sociais e dos programas incentivadores do
empreendimento, muitas dessas mulheres apostam em seus negócios e abrem microempresas, sejam elas por necessidade ou por oportunidade. “Essas mulheres têm vida ativa com as redes sociais e sentem-se estimuladas a fazer alguma coisa com o auxílio de programas de negócios”, aponta Antônio Sauaia. Apesar da conquista de algumas mulheres no mercado de trabalho, outras ainda não conseguiram espaço para desenvolver suas ideias. “A memória humana não se apaga da noite para o dia, o preconceito ainda existe,mas tem que ser gerenciável e eliminado”, diz Antônio Sauaia.

A paulistana Karina Matrella dos Santos, dermatologista e proprietária do Centro de estética Body Health, não teve receio quanto aos possíveis problemas que surgiriam no início da abertura da sua clínica. “Minha mãe teve medo quando eu falei que tinha que comprar os aparelhos para a clínica, falava que era muito caro, como eu iria fazer para pagar, mas eu fui lá comprei e graças a Deus tudo deu certo.”, afirma a empreendedora.

Sem medo de errar
Devido ao perfil do empreendedor ser totalmente aventureiro, querer fazer acontecer, jogar-se, arriscar-se e principalmente encarar o mercado como um jogo, onde o vencedor são suas ideias e o desejo de realização, muitos estudiosos o encaravam como pessoas que não gostavam de estudar, ou não tinham interesse de formar-se e atiravam-se apenas no mercado.Posteriormente, o administrador Peter Ferdinand Drucker conceitua o empreendedor como sendo um indivíduo capaz de aproveitar as oportunidades e criar mudanças necessárias, mobilizando recursos externos, colocando em evidencia o conhecimento e principalmente a experiência, para alcançar as suas metas. “O empreendedor tem que ter coragem, arriscar no desconhecido. Aprender com os erros na prática quando pula do avião, por exemplo, é por que deu vontade, por que ele quis”, afirma Antônio Sauaia.

Muitas microempresas não conseguem se firmar no mercado, devido a vários fatores, como por exemplo, problemas financeiros ou receio dos empreendedores em continuar o investimento. De acordo com dados informados pelo SEBRAE, aproximadamente 30% das pequenas empresas fecham em um ano. “Eu não tinha nenhum funcionário no início, eu era administradora, médica e recepcionista, trabalhava dia e noite, para quem deseja empreender, tem que trabalhar muito”, afirma Karina Matrella.

Pesquisas revelam que tanto o empreendedorismo por oportunidade
quanto por necessidade foram muito importantes para o Brasil superar a crise internacional ocorrida no ano passado, pois de acordo com o SEBRAE, o mercado interno foi equilibrado pelas micro e pequenas empresas, na maioria nas áreas de comércio e serviço. “O empreendedorismo move a economia, aproximadamente 80% dos empregos depende dele”, completa Antônio Sauaia.

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